Padre Brown: A rejeição da superstição e a análise fria do mundano. |Resenha ilustrada.

Em uma recente entrevista ao site Literatura Policial, Braulio Tavares definiu os crimes impossíveis como:

“(…) contos de mistério e de engenhosidade, que estabelecem um desafio entre o autor e o leitor. O autor propõe uma situação que parece sobrenatural (parece haver nela o envolvimento de espíritos, uma desmaterialização), mas depois vê-se que ela pode ser explicada de maneira concreta, material, realista.”

Essa descrição se encaixa perfeitamente em “A Maldição do Livro”, conto de G.K Chesterton, protagonizado por sua mais famosa criação literária: Padre Brown.

Oliver Herford (1863–1935) em “Confessions of a Caricaturist” de 1917. Foi um escritor, artista e ilustrador americano chamado de “The American Oscar Wilde”.

Como o próprio título aponta, temos aqui um objeto envolto em um intrigante mistério com um livro, capaz de subtrair da face da Terra todo aquele que ousar abri-lo. A cada hora, há uma nova vítima e o Professor Openshaw, um estudioso dos fenômenos paranormais, está prestes a perder a sanidade diante desse caso impossível.

E é aí que entra o Padre Brown, “um dos mais improváveis detetives da história da ficção policial”, como afirma Braulio na introdução do conto para a antologia CRIMES IMPOSSÍVEIS, da Bandeirola Editora.

“Em suas histórias, todos imaginam que ele, por ser padre, acredita no sobrenatural — e ele se mostra, ao fim e ao cabo, o mais prático, objetivo e lógico dos pensadores, sem abrir mão de sua fé.”

” O Conde de Glengyle” disse Brown tristemente, e olhou com pesar para o crânio”. Do livro “The Innocence of Father Brown”.

Um (improvável) grande fã de Chesterton, o teórico marxista italiano Antonio Gramsci, em suas “Cartas da Prisão”, afirmou:

“Padre Brown é um católico que zomba dos processos de pensamento mecânico dos protestantes e o livro é basicamente uma apologia da Igreja Romana contra a Igreja Anglicana. (…) através das refinadas experiências psicológicas oferecidas pela confissão e pela atividade persistente da casuística moral dos pais, embora não negligencie a ciência e a experimentação, mas confiando especialmente na dedução e introspecção, (…) assim, em Chesterton, há uma lacuna estilística entre o conteúdo, o enredo da história de detetive e a forma e, portanto, uma sutil ironia em relação ao assunto tratado, o que torna essas histórias tão deliciosas.”

O ator britânico Mark Willians na série Father Brown da BBC. No Brasil, exibida pela Tv Cultura.

Essa descrição causa um paralelo interessante com outro personagem presente na antologia CRIMES IMPOSSÍVEIS: o Tio Abner, de Mellville Davisson Post.

Em sua introdução para o conto “O Mistério de Doomdorf”, Braulio descreve o personagem assim:

“Imponente de estatura e estentórico em seu vozeirão, ele caminha como um profeta do Velho Testamento por um mundo cheio de crime, roubo, corrupção e mentira. E, como certos profetas de antigamente, sabe trançar num só chicote punitivo as leis de Deus e a justiça dos homens.”

Tanto Brown quanto Abner são dois argutos observadores da natureza humana. A diferença é que, enquanto Tio Abner justifica todos os mecanismos lógicos como atos sobrenaturais, Padre Brown rejeita a superstição e analisa friamente o mundano.

Ambos os personagens e contos, com suas diferenças, são ótimos exemplos dos crimes impossíveis. O leitor que se aventurar por essas páginas, corre o risco de desaparecer durante as horas de pura diversão.

CRIMES IMPOSSÍVEIS é uma antologia com tema inédito no Brasil, com narrativas cuidadosamente selecionadas entre as pioneiras do tema conhecido como “o quebra-cabeças” da literatura policial.

Iconografia e pesquisa por Helena.

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