Arséne Lupin em A MORTE NA PRAIA (1922): Uma crítica ácida e bem-humorada de Maurice Le Blanc à sociedade francesa do início do século XX. | RESENHA

O mistério faz parte da existência do ser humano. O que há além das estrelas, o que esconde a escuridão da noite sem lua, o que há atrás da porta trancada? Há o anseio de descobrir as respostas para tudo aquilo que provoca uma quebra em sua existência, aparentemente, organizada.

Somos atraídos por narrativas de mistério que desafiam a lógica estejam elas na natureza, nas páginas dos jornais, na narrativa de um livro, nos prendendo página após página, ansiosos pelo desfecho do enigma.

O ator André Brulé, um dos primeiros intérpretes de Arsène Lupin no teatro. Caricatura por de Charles Gir.

Nos últimos anos, temos visto um revival das histórias de detetive no cinema e TV, seja nas várias adaptações dos livros de Agatha Christie, Harlan Corben ou o Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle. Mais recentemente, ganhou as telas da TV a série na Netflix do famoso ladrão Arsène Lupin, criado por Maurice Le Blanc, o que, rapidamente, causou uma onda de republicações dos livros com o personagem no Brasil.

Imagem de divulgação do seriado LUPIN, protagonizado pelo ator
Osmar Sy, para a Netflix.

Sua estreia foi no clássico “O LADRÃO DE CASACA”, publicado em 1902. Lupin era um aristocrata malandro que, por trás dos engenhosos roubos de joias e artefatos, ajudava vítimas da hipocrisia predatória de milionários gananciosos e assassinos, numa crítica ácida e bem-humorada do autor à burguesia e à sociedade francesa do início do século XX. Seus planos arriscados, disfarces engenhosos e fugas de tirar o fôlego conquistaram os leitores de imediato e outros livros foram publicados nos anos seguintes.

Arsene Lupin, Ilustrado por H. Richard Boehm (1909).

Mas, após a I Guerra Mundial, o personagem, acabou se tornando “um investigador da história secreta da França, solucionando mistérios seculares, recuperando relíquias, impedindo guerras”, como nos conta Braulio Tavares – organizador e tradutor de CRIMES IMPOSSÍVEIS, novo lançamento da Bandeirola Editora, que traz, pela primeira vez no Brasil, uma antologia focada em mistérios de crimes de quarto fechado. E, claro que não poderia faltar alguma aventura de Arséne Lupin.

Páginas internas da antologia CRIMES IMPOSSÍVEIS, por Thaís de Bruyn Ferraz (editora de arte), Sandra Abrano (editora) e pesquisa iconográfica de Helena Dozz
(assistente editorial).

O conto selecionado é “A MORTE NA PRAIA” (1922-1923), no qual Lupin, sob o disfarce de Príncipe Rénine, precisa fazer muito mais do que descobrir quem é o assassino de um complexo caso.

Na companhia da bela Hortense Daniel, o astuto detetive encontra-se em um local onde ocorrerá um assassinato, de acordo com uma mensagem por ele decifrada em um anúncio de jornal. Sem conhecer os personagens envolvidos na diabólica trama, ele apenas sabe o local e hora em que alguém será assassinado. Contudo, nada ocorre como o esperado: um corpo é encontrado, mas em outro local… um quarto fechado. Como resolver esse crime, aparentemente, impossível? Só posso dizer que Lupin precisará correr contra o tempo para tentar impedir que uma injustiça ainda maior aconteça.

“A MORTE NA PRAIAfoi minha primeira incursão no universo lupiano e não poderia ter sido um início melhor.

Trata-se de um conto intrigante, de tirar o fôlego, e cuja complexidade gera um interessante debate sobre justiça, moral e equidade.

Sem dúvida, um conto imperdível, tal qual esta belíssima antologia que a Bandeirola preparou para aqueles que, desde os tempos primitivos, anseiam por solucionar mistérios.

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