O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite.

por Sandra Abrano

Os livros da Bandeirola trazem um ícone exclusivo por série.

Para Clássicos Vintage Mistério, uma aranha.
Libélula para a Ficção Científica de Clássicos Vintage.
A Ficção Científica de Braulio Tavares é um salto, talvez um mergulho,
na criação de Romero Cavalcanti.

E a BIBLIOTECA PESSOAL de BRAULIO TAVARES?

Esse é o nome da série de antologias, da qual CRIMES IMPOSSÍVEIS é o primeiro título. Não é fácil imaginar uma figura que represente o conteúdo de uma coleção de livros. A ideia sempre é densa e a imagem minimalista.

Roberto Rosa realizaria a façanha, ilustrador que nos acompanha há um tempo.

Não adianta falar para o Bob algo como “olha, é uma Biblioteca Pessoal de um cara como o Braulio Tavares. Ele lida com a palavra em suas diversas formas. Cultiva desde criança o mundo por onde circula sua imaginação, frases, poemas e conceitos, letras de música. Bola aí algo que represente isso.”

Eu teria que avançar junto com o Bob.

Primeiro pesquisei fotos de bibliotecas pessoais, algo como os intelectuais e suas bibliotecas.

Braulio e sua biblioteca.

Se Borges é uma referência para Braulio Tavares? É.
Umberto Eco? Claro.
E sebos, bibliotecas públicas, livros da família, aqueles que estão só na internet, em português, inglês, francês, espanhol? Claro que sim.

Ok. Então uma ideia seria prateleiras de livros, abarrotadas, livros alinhados na vertical ou em desordenada pilha horizontal.

Pobre, né. Básico.

Bob avançou mais do que eu e desenhou uma figura humana e engrenagens que evoluíam para cima e além. Abstrato demais, Bob.

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O dia não é feito de um único assunto: novos originais de autores nacionais, tradutores de espanhol, de alemão. Livros na bancada, nas prateleiras próximas, jornais literários, as revisões do texto de CRIMES IMPOSSÍVEIS, projeto gráfico definido e a página para o ícone da série ainda em branco.

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Quem fez minha cabeça literária foi Faulkner (e um monte de outros), mas Faulkner foi o primeiro a me mostrar que não há limite para as palavras e o que elas podem representar em seu jogo de combinações. Fiquei um tempo desconcertada com O Som e a Fúria e passei por outros de sua autoria com igual espanto, lá pelos vinte. Faulkner me impressiona até hoje. Alcóolatras produtivos me impressionam, Edgar Allan Poe entre eles.

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O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor.

Essa é uma dessas frases que faz parar para pensar. Poderosa porque síntese da sensação de quem pensa a literatura, de quem é apaixonado por ela, de quem lê. Ela circula pelos sete ventos digitais, sempre atribuída a William Faulkner.

Fiquei algum tempo na internet para certificar a autoria, mas se tem uma coisa que eu acho chatésima são essas pesquisas online. Tem gente safa nisso, verifica tudo que quer, chega ao fundo da verdade, mas eu… ahhh que enjoo essa atividade. Mas não esmoreço e faço a minha parte.

Enfim, é uma frase atribuída ao Faulkner em inglês, em francês e em português. Se consegui uma fonte idônea, dessas com aval acadêmico, ou publicada em jornal ou revista literária, em livro ou teses que analisam a obra de Faulkner? Nop. Todo mundo sabe ou diz que. Então, que seja ou talvez não. Experts em pesquisa na internet, se conseguirem uma verificação, por favor, digam.

Mas o que interessa para a criação do ícone da BIBLIOTECA PESSOAL de BRAULIO TAVARES é a ideia poderosa que a frase carrega e o Bob a representa com sensibilidade.

O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor. (talvez de William Faulkner)

2 comentários

  1. O mundo é um catálogo de referências, disforme e labiríntico. O sentido é o que buscamos. Mais ou menos. Na literatura a luz é forte. Sigamos essa luz.

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